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  • Bruno Crispim

A arte de não contar, mas mostrar

Atualizado: Mai 8



Show, don’t tell. Mostre, não conte.


Nenhum dos conselhos de escrita é tão dado e tão pouco compreendido. Menos ainda, seguido. Então, preste atenção que este é, na minha opinião, o post mais importante deste blog até agora.


A ambição por trás desse mote – que parece simples, mas não é – é facilitar a imersão do leitor ao impedir que a narrativa soe artificial.

Nas palavras de Robert Mckee: “Nunca force palavras nas bocas das personagens para contar ao público sobre o mundo, a história ou as pessoas. Ao invés disso, mostre-nos cenas honestas e naturais nas quais os seres humanos conversam e se comportam de maneira honesta e natural (...). Em outras palavras: dramatize a exposição.”


O significado de dramatização da exposição é dar ao leitor todas as informações necessárias para o bom entendimento da história indiretamente, através de ações ou diálogos. Fazendo isso, a cena ficará mais suave e você eliminará barreiras à imersão.


Sutileza é a palavra-chave.

E como estamos tratando de mostrar, e não dizer, vamos às demonstrações.

CENA DITA

Jorge e Eliza não se viam há muito tempo. Desde que terminam o namoro, quase um ano atrás. Um dia, eles se encontram. Ele fica confuso e envergonhado ao perceber que ela continua mexendo com o seu coração.

CENA MOSTRADA

Jorge passa o olho pelas pessoas que andam pela rua. Encara por alguns segundos um careca de terno impecável. Impressionante, até a careca fica bem nele, pensa. Depois muda para numa velha corcunda. E depois numa loira de vestido colado. Ela o encara.

–– Jorge? –– ela diz.

Ele encara a loira. Boca aberta. A voz não vem.

Ela se aproxima e beija suas bochechas. Jorge não reage.

–– Sou eu. Eliza. Vai falar que não se lembra de mim! –– Coloca as mãos na cintura. –– Não faz nem um ano que a gente... você sabe...

Ele sorri.

–– Lógico que lembro de você lind... quer dizer... eu lembro de você Eliza.

Ela sorri.

Com o rosto quente, ele abaixa a cabeça.

CONCLUSÃO

É muito mais rápido – nesse caso 3x mais rápido – e fácil contar alguma coisa. É exposição pura e simples. Mas a dramatização é mais envolvente. Traz o leitor mais para perto. O faz imaginar.

Existe ainda uma consequência secundária da dramatização. Conforme você vai criando detalhes para preencher as lacunas necessárias, você conhece melhor as suas personagens. Trejeitos, escolhas de palavras, tiques nervosos são criados a partir de detalhes mínimos que você pode encontrar na dramatização.

CONTRAINDICAÇÃO

Como tudo na vida, existe contraindicação. Nem sempre é ideal dramatizar partes com pouca importância para a história. Se uma informação é (realmente) necessária e mostrá-la desacelera a cena a ponto de prejudicá-la, pense em:

· realocar essa informação em outra parte da história

· deixar o leitor sem ela – teste sem ela para ver se o leitor pode viver sem ela

· como última opção, e só como última, pense em contá-la.

Às vezes, contar é a melhor opção, mas não conte só por preguiça.

CALMA, VOCÊ APRENDE

Poucos comentários foram tão frequentes nesses anos de GUIA quanto “eu não consigo mostrar uma cena”.

Sim, é difícil mesmo. Mas, calma. Como todos os temas da escrita, com leitura, prática da escrita e muita reescrita, você vai começar a mostrar mais do que conta. Quando menos você perceber, já estará dramatizando as cenas naturalmente.

Pode acreditar em mim: você consegue!


Indicação de leitura

No final de cada post, irei recomendar um livro que pode, de alguma forma, te ajudar na sua jornada como escritor(a).


Hoje, recomendo o livro Story: Substância, estrutura, estilo de Robert Mckee: Sem dúvida o livro técnico mais impactante para a minha escrita. Mckee é um consultor de roteiros de Hollywood com muita experiência em enredo. A obra trata do design de roteiros e quase tudo pode ser adaptado para a literatura.


Se você gostou dessa recomendação e quiser comprar o livro, use esse link para contribuir com a manutenção do GUIA ;)

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