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  • Bruno Crispim

o manual para uma grande cena

Atualizado: 13 de set.




Robert McKee – renomado consultor de roteiros de Hollywood – define a cena ideal com um evento onde algo causa uma mudança significativa na vida de uma personagem a ponto de criar um conflito para esta. A palavra “significativa” é importante para entendermos que a mudança e o conflito têm que ser necessários para a trama. Se a mudança for insignificante, a cena perde seu propósito e deve ser corrigida ou excluída.

Ele salienta, com grande ênfase, que a carga dramática do início da cena tem que ser oposta a do final da cena. O que ele quer dizer com isso?


POLARIDADE DAS CENAS

Em cada cena um sentimento é evidenciado sobre os outros. Amor, inveja, violência, pesar etc. E cada sentimento tem uma carga positiva ou negativa ligada a ele.

O que McKee nos pede é que identifiquemos este sentimento e, em seguida, estudemos a evolução da carga dramática dele. Deve haver mudança na polaridade. É o que ele chama de “virar” a cena.

Por exemplo, se a cena em que percebe que a sua paixão é recíproca, trata-se de uma cena com ênfase no amor, com carga positiva. Se a cena posterior mostra que a mesma pessoa que o protagonista gosta é casada, a ênfase continua no amor, mas a carga se torna negativa.

É essa inversão de polaridade que garante as quebras de expectativa a cada cena – o que ele chama de “virar” a cena. Analisemos o impacto dessa reversão em dois exemplos do próprio McKee:

Exemplo 1

“Chris e Andy estão apaixonados e vivem juntos. Numa manhã eles acordam e começam a brigar. A discussão cresce na cozinha enquanto eles se apressam para fazer o café. Mas eles percebem que brigam por nada, pedem desculpas e se perdoam.”

Neste exemplo, eles se amam e estão juntos no início e no final. Não há reversão de polaridade, consequentemente, não há quebra de expectativa e o conflito criado não se desenvolve.

Exemplo 2:

“Chris e Andy estão apaixonados e vivem juntos. Numa manhã eles acordam e começam a brigar. A discussão cresce na cozinha enquanto eles se apressam para fazer o café. Na garagem, a briga piora enquanto os dois entram no carro para irem juntos ao trabalho. Finalmente, palavras viram violência na estrada. Andy para o carro no acostamento e pula fora, acabando com o relacionamento.”

Perceba que a metade inicial do texto é a mesma, mas a potência da cena é muito maior. Isto acontece porque existe uma reversão na polaridade da cena que começa positiva e termina negativa – ainda que a ênfase no amor continue.


A comparação entre os dois exemplos é desleal com o primeiro. O segundo criou um conflito e uma mudança que precisarão ser resolvidas nas próximas cenas. O primeiro desperdiçou o seu conflito e se transformou em um simples relato de uma briga conjugal rotineira.

O conselho de McKee para a primeira cena é simples: uma cena de função meramente expositiva deve ser eliminada e a informação deve ser realocada em outro lugar. Um escritor que mantém a cena está sendo, para ele, preguiçoso.


FUNÇÕES DE UMA BOA CENA

McKee também define as cinco funções que toda a cena deve, necessariamente, ter:


Ser essencial à trama: sem ela o enredo perde impacto ou profundidade

Mudar a situação de vida da personagem: algo precisa acontecer nela que muda a vida de alguém importante para a história

Criar conflito: É através da criação de conflito que a trama evolui

Virar sua carga dramática

Expor informações sobre os personagens, tempo e espaço. A exposição, entretanto, nunca se mantém sozinha.


McKee propõe um exercício para nos tornarmos conscientes da importância da polaridade das cenas. Divida o seu romance por cena e anote o sentimento principal e a evolução da sua carga dramática. Quando não houver inversão de polaridade na cena, corte a cena e aloque a exposição em outro lugar.


Eu deixo aqui dois alertas especiais para cenas meramente expositivas – tão comum em gêneros como Fantasia e Ficção Científica:

● Procure por uma forma mais eficiente de mostrar toda essa informação para os seus leitores.

Tenha calma. Não jogue toda a informação no colo do leitor de uma vez só. Deixe perguntas no ar. Confie na capacidade de interpretação do seu leitor.



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