top of page
Buscar
  • Foto do escritorBruno Crispim

a versão de descoberta: quando é até bom você errar logo


versão de descoberta de uma história


Recentemente, ouvi o termo versão de descoberta e fiquei impressionado como ele se encaixa na maneira como que eu escrevo os meus romances. Essa metodologia se resume em saber, desde o início, que você precisará reescrever o texto várias vezes, partindo de uma versão exploratória, apenas para conhecer melhor a trama, as personagens e a forma ideal de contar essa história.


Não há nada de brilhante ou mirabolante nesse método. É bem simples, na verdade. Mas, refletindo sobre essa maneira de escrever, surpreendi-me ao descobrir que, até recentemente, nunca a abordei diretamente no GUIA. Então, uso este capítulo para explorar essa forma de escrever. Começando de como ela apareceu para mim.


Eu estava com muita dificuldade de terminar a primeira versão de O Segundo Caçador, o meu romance de estreia. Não estava satisfeito com o início, e ficava reescrevendo-o infinitamente. Uma hora, na primeira pessoa, outra, na terceira. Uma hora, no passado, outra, no presente. Uma hora o texto era um roteiro de filme, outra, um conto, e nas demais, um capítulo de romance. E estava tão indeciso com o início que não me importava com o que aconteceria no resto da trama. Foi quando eu entendi que, nesse ritmo, não terminaria o livro nunca.


O grande problema é que eu tinha separado alguns meses para escrever. Já tinha tentado por anos enquanto trabalhava, mas não tinha dado certo. Naquele momento, não estava estudando, nem trabalhando. Logo, teria que voltar para a vida normal, fazendo os dois ao mesmo tempo. Se não desse certo naquele momento, eu perderia a minha grande chance.


No desespero, decidi seguir em frente com as decisões que faziam sentido naquele instante: um romance no presente e em primeira pessoa. Em duas semanas, todo o foco foi em chegar até o final pela primeira vez. Se não ficasse bom, seria um problema para o “eu do futuro” resolver.

Essa é a base da versão de descoberta. Nada é importante, a não ser conhecer a história. E só a conhecemos em profundidade quando chegamos ao final. De lá, podemos olhar a história do alto e fazer um diagnóstico mais preciso do que não funciona. E, não se engane, a primeira versão será necessariamente um lixo.


Eu já tinha passado o olho no que virou o meu mantra (Toda primeira versão é uma merda), mas, sinceramente, fiquei desesperado com a falta de qualidade da minha primeira versão. Ela tinha metade do tamanho de um romance, faltava coesão e coerência em tudo quanto canto, e o ritmo estava lento demais. Aí, eu caí na besteira de enviar para uma amiga formada em Letras. Ela não foi uma boa leitora beta. Só apontou erros. Principalmente em pronomes. Ela ficou visivelmente desapontada comigo e eu me senti um idiota. Aquilo quase me fez desistir.


Foi quando eu descobri que qualquer obra, em seus estágios iniciais, não deve ser julgada pelo o que ela é, mas pelo que ela pode ser. Ela não tem forças para ser colocada à prova e sobreviver sozinha. Por isso, deve ser colocada em uma incubadora, exatamente como como uma empresa ou um bebê recém-nascidos.


De alguma forma, reuni forças e continuei.


Já na segunda versão, o enredo e o ritmo estavam muito melhores. Na terceira, eu atingi a minha meta de 80 mil palavras. Na quarta, eu fiquei, enfim, satisfeito com o material.


A diferença entre a primeira e a quarta versão foi quarenta e poucos dias. Um mês e meio. Foi um período de trabalho intenso, é verdade, mas perceba como essas versões estavam próximas e eu não tinha percebido.


Eu fiz nove versões no total. E eu queria chamar a atenção para a diferença abismal entre a primeira e a última. Uma me dava vontade de desistir do sonho de ser um escritor profissional, a outra ganhou um prêmio literário e foi publicada.


Aos poucos, fui ficando mais seguro com a evolução entre as versões. Ao ponto de me divertir quando mostrei a primeira versão do meu segundo romance (Morte e Ascensão de Darla Abranches) para o seu primeiro leitor: o mestre Marcelino Freire.


Não me esqueço da decepção e da pena que ele não conseguiu esconder. Todo constrangido, ele me disse que não estava bom.


Naquele dia, eu disse para ele, e digo para você agora:


Calma, vai ficar bom. Na próxima versão, já vai estar muito melhor.”





56 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page